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Artilheiro do início da J-League, Rafael Silva é a peça que faltava para o Urawa?
 
13/03/2017

A melhor defesa de 2016 na J-League resolveu ser o melhor ataque em 2017. O Urawa Reds tem batido na trave ano após ano e, para acabar com o jejum de 11 anos sem título na liga nacional e de dez anos na Liga dos Campeões da Ásia, resolveu apostar no futebol ofensivo. Apesar das derrotas na Supercopa (2x3 Kashima) e na abertura da J1 (2x3 Yokohama), o time se recuperou com grandes vitórias na ACL (4x0 Western Sydney Wanderers e 5x2 FC Seoul) e também no Japonês (3x1 Cerezo e 4x1 Kofu). 20 gols marcados em seis jogos até agora na temporada. E o destaque do início de campanha é o único dos reforços que vem sendo titular: Rafael Silva já marcou quatro vezes na J-League, onde é artilheiro isolado, e também guardou um na ACL. Seria ele a peça que faltava para que as tão esperadas taças comecem a ir para Saitama?

Racismo na torcida?
Paulistano e com passagem pela base do Corinthians, Rafael se profissionalizou no Coritiba em 2012 e defendeu o Lugano, da Suíça, antes de chegar ao Japão em 2014. Passou as duas últimas temporadas e meia no modesto Albirex Niigata e lá chamou a atenção dos grandes do país. Cinco clubes vieram tentar contratá-lo ao fim do ano passado. O atacante, que completa 25 anos em abril, escolheu o Urawa, mas pensou duas vezes por causa dos recentes casos de racismo de torcedores dos Reds com os brasileiros Caio (ex-Kashima Antlers) e Patric (Gamba Osaka). "Isso aí me fez pensar muito antes de vir para cá", revela. "E fazia dois, três anos que o clube não contratava brasileiro. Como eu tinha outras propostas, pensei em ir para outro time por causa disso, mesmo sabendo que o Urawa é a equipe mais forte do Japão", conta. Gamba, Kashiwa, Nagoya e Kobe também estavam interessados no artilheiro do Niigata em 2016, e ele por pouco não optou pelo time comandado por Nelsinho Baptista, que inclusive cobriu a oferta do clube de Saitama. "Mas como o meu objetivo é ganhar títulos e poder ser até o melhor jogador do Japão, eu aceitei a proposta do Urawa. Aceitei esse desafio e graças a Deus está tudo dando certo. Todo mundo me tratando super bem. Torcida, jogadores... Totalmente diferente do que eu imaginava antes de entrar aqui", anima-se.

Adaptação
Para o clube antigo, ficou o sentimento de gratidão. "O tempo que eu passei no Albirex serviu para aprender muito e por isso não estou tendo dificuldade aqui no Urawa", diz. "Eu falo com o Léo [Silva] direto. Temos uma amizade muito boa. Sempre depois dos jogos a gente conversa para falar como é que foi o outro, a gente comenta muito do Niigata também porque é um time que a gente criou um carinho. O Léo ficou lá quatro anos, eu fiquei dois anos e meio. E a gente fez uma história bonita lá", conta. "Eu acho que se eu tivesse vindo do Brasil direto para o Urawa, aí sim eu teria muita dificuldade e talvez acho que não conseguiria me adaptar. Mas como já estava no Japão, já estava bem adaptado, não tive problema não."

Rafael Silva (10) e Léo Silva (8) defenderam o Albirex Niigata até o ano passado e ajudaram o time a se manter na elite; hoje os dois estão em clubes rivais que disputam o título da J-League. "Quando chegar o dia de jogo contra eles [Kashima Antlers] vamos ver o que a gente faz. Talvez o perdedor paga uma churrascaria no dia de folga", brinca Rafael.

Novo ambiente
Sair de uma equipe que foge do rebaixamento para outra que briga por títulos é um salto e tanto. "Eu senti uma diferença muito grande. Não de estrutura, a do Albirex também era de time 'top'. Mas no elenco eu senti muita diferença. Aqui a disputa é muito maior porque todos, praticamente todos jogadores do grupo têm muita qualidade, tem jogador de seleção também", explica. Atuar no Saitama Stadium 2002, o popular Saisuta, diante da torcida com a maior média de público do país (36.935 em 2016) também tocou o brasileiro. "Nossa, isso é uma coisa que motiva muito. Até em jogo de terça ou quarta-feira, sete horas da noite, o estádio tem 25 mil. A torcida é muito grande, é uma coisa que mexe com a gente, é muito legal."

Mudando conceitos
"Antes de chegar no Japão eu pensava assim: 'Pô, japonês corre muito, isso eu tenho certeza. Mas a qualidade é fraca.' Esse foi meu pensamento antes de chegar. Mas quando eu cheguei, vi que era diferente. Além de correr muito eles têm qualidade. Claro que tem jogador abaixo ainda mas tem jogadores que podem jogar na Europa, que podem jogar no Brasil também. Essa foi a diferença que eu notei quando eu cheguei", pondera. Aos poucos Rafael percebeu que o futebol japonês tem mais pontos positivos do que ele imaginava.

"É um país em que o futebol está crescendo de verdade e tem muitas coisas que é melhor que no Brasil hoje em dia. Estádio, estrutura, organização, salário... Aqui eles são muito corretos. Seu time pode estar perdendo, pode estar na zona de rebaixamento que o salário está lá na conta todo mês certinho, não tem atraso nenhum. E respeito do torcedor também. Porque se você perde um jogo no Brasil você não pode sair na rua no outro dia, não pode ir no shopping. Aqui, se perdeu, fora de campo você tem sua vida normal. Pessoal te respeita muito. Isso aí que eu acho muito legal. A cobrança no Brasil é muito forte, se perdeu você não pode sair de casa até o próximo jogo."

"O nível acho que não está muito abaixo não. Você vê aí no Mundial agora o Kashima Antlers que jogou contra o Real Madrid de igual para igual. Acho que o Japão não está perdendo para o Brasil no nível de qualidade", analisa.

Parceria: da esquerda para a direita, o tradutor brasileiro Rodrigo, o atacante esloveno Ljubijankic, o atacante japonês Onaiwu (filho de pai nigeriano), o ala japonês Ugajin, o brasileiro Rafael Silva e o zagueiro japonês Makino. "Aqui o ambiente é diferente", diz Rafael, que se diz à vontade em meio às brincadeiras lideradas pelos zagueiros Makino e Moriwaki. "Esses dois são muito engraçados. Mas não só os dois. O goleiro [Nishikawa] também é parceiro demais da zoeira. Eu gostei muito disso porque os caras não são de ficar te zoando pelas costas, fazendo trairagem. É brincadeira sadia, sem maldade. Então eu entro na bagunça também, falo umas paradas que eu sei lá que os caras me ensinam mas fico sempre de olho no intérprete também, porque qualquer coisa que não entendi ele pode me ajudar", diverte-se. 

Futebol ofensivo
Nos últimos anos o Urawa deixou escapar entre os dedos vários troféus por detalhes. Uma falha em um momento crucial, um contra-ataque e virada sofrida nos últimos minutos... Era o favorito ao título nacional nos três últimos anos, mas só tem ficado no quase. Acreditando que está no caminho certo, a diretoria tem mantido o elenco, assim como o técnico sérvio Mihailo Petrovic, que está no clube desde 2012. A principal mudança para o ano passado é a postura mais ofensiva e a chegada de Rafael Silva só ajudou o ataque a deslanchar de vez. "Ah, é um time muito ofensivo. Quando eu jogava contra, eu sei que todos queriam jogar sempre no contra-ataque. Porque se querer jogar de igual para igual, vai tomar muitos gols. E hoje eu faço parte disso. Na maioria dos jogos a posse de bola da gente está muito alta e para o atacante isso é perfeito", avalia.

"O treinador tenta colocar na nossa cabeça que nós somos os melhores. Toda preleção ele fala: 'Nosso time é o melhor e eu não vou mudar nossa forma de jogar. Jogar ofensivo independente de quem seja o adversário.' Ele vai colocando isso na cabeça dos japoneses e passa confiança. Acho que por isso nosso time joga tão aberto e para frente o tempo todo, sem medo de perder uma bola lá atrás, de tomar um contra-ataque. Um confia muito no outro. Eu sou o cara novo que chegou agora, o resto está jogando junto há muito tempo, então eles se conhecem bem. E eu, mesmo com pouco tempo, estou me entrosando legal e está dando certo", comemora o atacante que tem cinco gols em cinco partidas disputadas este ano (duas na ACL e três na J1).

Artilheiros do Urawa na J-League:
Masahiro Fukuda (1995), 32 gols - Resultado: 4º lugar
Emerson Sheik (2004), 27 gols - Resultado: 2º lugar
Washington (2006), 26 gols - Resultado: Campeão

Desafios
A última vez em que o Urawa teve um artilheiro na J-League foi na última conquista, com Washington Coração Valente em 2006. Para Rafael, é a chance de se juntar à galeria de ídolos do clube. "Esse passou a ser meu maior objetivo [individual]. Claro que o primeiro é ganhar título. Até porque nos últimos anos o Urawa bateu na trave. Esse ano a cobrança está maior, da diretoria, até dos torcedores também, que sempre falam. Quero conseguir os títulos e, se possível, ser o artilheiro do campeonato também."

As credenciais de favorito do Reds serão postas à prova esta semana. No domingo, joga fora de casa contra o Gamba Osaka, um dos seus carrascos recentes. Antes disso, na quarta-feira, enfrenta na China o Shanghai SIPG, que conta com o trio Hulk, Elkeson e Oscar no ataque e também venceu nas duas primeiras rodadas da ACL. "É claro que a gente tem que ter respeito por esses caras, né? Jogadores de seleção brasileira, jogadores perigosos", declara Rafael sobre o próximo adversário. "A gente tem que ir lá para a China mas não com o pensamento de que vamos chegar lá e golear os caras. Mas o grupo está confiante, a gente vem de vitórias, então quando começa a ganhar, a confiança só aumenta. Vamos para lá com o pensamento sempre de vitórias e jogando da mesma forma independente do adversário, como o treinador sempre fala."

J-League ou ACL?
Alguns clubes japoneses são acusados de não dar o devido valor à Liga dos Campeões da Ásia, priorizando a J-League. Não é mais o caso do Urawa, que tem mandado praticamente força máxima para as duas competições. Para Rafael também é uma escolha difícil caso ele só pudesse ser campeão de um desses torneios. "Não posso ficar com os dois? (risos) É difícil, porque a J-League está engasgada. Eles chegaram na final ano passado e perderam. E na ACL não passaram das oitavas. Pô, a J-League eles querem muito ganhar esse ano. E a ACL é o objetivo de todos os times, né? É uma Champions League, um campeonato importante. Você pode se tornar o melhor da Ásia. Então, acho que fico com... (pensa por um instante) A ACL, já que não posso escolher os dois. (risos)"

Possibilidade de se naturalização?
Existe um histórico de brasileiros na seleção japonesa: Nelson Yoshimura, Jorge Yonashiro, Ruy Ramos, Wagner Lopes, Alex Santos, Marcus Tulio Tanaka... É inevitável cogitar uma possível naturalização quando algum brasuca começa a se destacar no futebol japonês. Rafael é bem sincero sobre o tema. "Por coincidência eu estava conversando sobre isso esses dias com meu empresário e minha família. Só que o Japão está muito rígido agora. Tem que estar morando há cinco anos no país, tem que estar falando fluente e escrevendo também", explica. Apesar de ter dominado todo o vocabulário que precisa para se virar dentro de campo, a ajuda do intérprete é necessária na hora da resenha. "Pô, eles têm três alfabetos... Muito difícil, cara, muito difícil. Estou aqui há quase três anos e não consigo conversar direito com a pessoa. Então acho que isso aí vai impedir de poder me naturalizar", admite. Mas voltar ao Brasil também não está nos planos por enquanto. "Para falar a verdade, quero dar continuidade na minha carreira fora [do Brasil] e se possível voltar para a Europa. Quando estiver mais velho, claro que penso em voltar e encerrar a carreira no Brasil. Mas ainda isso não passa na minha cabeça não. Quero continuar fora do Brasil", concluiu.

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